A MENINA QUE SE CORTAVA
(HISTORIA SEM SENTIDO PARA QUEM NAO SABE A DOR QUE HA DENTRO DA MENINA)
De uns anos pra cá, tenho me sentido um tanto sozinha. Confesso que tenho vários amigos, uma família grande que me ama, mas, ainda assim, me sinto só. Por mais que pareça estranho uma menina que tem oito irmãos se sentir solitária, é como eu me sinto.
Às vezes, tenho vontade de conversar com alguém ou só pedir um abraço. Porém, não sei demonstrar afeto. Pareço dura e fria, mas sou um poço de sentimentalismo. Não sei viver sozinha, mas também não sei fazer com que as pessoas se aproximem e gostem de mim.
Há alguns anos, para suprir essa necessidade de ter alguém ao meu lado, para diminuir essa angústia de não ter ninguém, eu comecei a me cortar. “Uma dor para aliviar outra dor.” É o que eu repito em pensamento, toda vez que faço isso, para não me sentir culpada.
Já faz algum tempo que não me corto. Minha família descobriu e tem tentado me ajudar. No entanto, quase todo dia, eu acordo com vontade de me cortar para encarar mais falsidade, mais fingimento e tudo aquilo que não gosto de fazer, mas faço porque é necessário.
Obrigada pela atenção,
Bruna
Cara Bruna,
Logo que entrei na faculdade, antes mesmo do início das aulas, conheci uma menina que, em muito pouco tempo, se tornou uma grande amiga. Vou chamá-la de Karen. Um dos veteranos tinha acabado de raspar todo o meu cabelo e, ao contrário do que manda o protocolo dos trotes universitários, eu não estava muito feliz com aquilo. Foi então que minha nova colega se aproximou e me ajudou a limpar os ombros e as costas. Um inesquecível gesto de empatia, de alguém que havia me conhecido algumas horas antes.
Bem diferente de mim, a Karen era excepcionalmente extrovertida. Não tocava violão muito bem, mas sabia contar piadas como ninguém e tinha uma gargalhada maravilhosa e contagiante. Peço até perdão, pois, para descrevê-la aqui, o excesso de adjetivos se fez necessário. Enfim, bastaram algumas semanas para que a Karen se tornasse representante de sala e conquistasse a simpatia de quase toda a turma. Ela morava sozinha em São Paulo, e adorava encher o apartamento de amigos para bater papo e tomar cerveja.
Após um desses intermináveis encontros, enquanto todos se preparavam para ir embora, a Karen pediu discretamente que eu ficasse mais um pouco, pois ela queria conversar. Foi naquela noite que eu a conheci de novo. Ela me contou que se sentia extremamente solitária e que, às vezes, quebrava alguma das garrafas que tínhamos acabado de beber para, com os cacos dela, fazer cortes superficiais no próprio corpo. A maior parte deles, escondida nas coxas. “Uma dor física para suportar toda a dor emocional”, ela me disse.
É óbvio que me lembrei dessa história ao ler a carta que você me escreveu, Bruna. Na ocasião, recomendei à Karen que procurasse um médico ou um psicólogo, e é exatamente isso que sou obrigado a sugerir que você faça, minha cara. A automutilação é uma questão complexa e deve ser tratada com a ajuda de um especialista. Ao mesmo tempo, quero que você preste atenção e entenda que, assim como a minha amiga, você é muito mais do que isso. Portanto, peço, por favor, que você jamais aceite o rótulo que dá título a esta carta.
Em ambos os casos, como você deve ter notado, o problema que está por trás desse comportamento aparentemente anormal é a solidão, Bruna. É sobre isso que posso e quero falar com você. Ironicamente, você não está sozinha. Todo ser humano é essencialmente solitário. A diferença está na forma com que cada um lida com isso. Eu sei como você se sente. Você não é uma pessoa “dura e fria”. Nem fresca, nem ingrata, nem louca e nem suicida. Você é apenas alguém que está com medo de se colocar no mundo. Alguém que, no fundo, só quer ser amada pelo que é, como todos que me escrevem.
Por isso, eu lhe pergunto. Quem é você? O que há dentro da menina que acorda com vontade de se cortar? O que você curte fazer? Do que você não gosta? Posso lhe pedir um favor? Mande-me uma segunda carta. Nela, de forma sincera e transparente, tente me apresentar outra Bruna. A melhor Bruna possível. Afinal, eu me recuso a aceitar que você seja somente alguém que se automutila. Isso diz muito pouco sobre você. É apenas um comportamento. Você certamente já foi, e ainda pode ser, a Karen de alguém. Aliás, por falar nela, saiba que hoje ela está bem. Estou certo de que você também ficará.
Um grande abraço,
Estranho
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